Na sauna masculina

Na sauna masculina
Embora não seja dos maiores curtidores de clubes, sou sócio de um dos mais tradicionais de São Paulo. Como no sábado passado meu primo Ruddes, o membro tolerância zero da família, foi almoçar conosco e não tínhamos nada programado para o resto do dia, convidei-o para irmos à sauna do clube, coisa que eu não fazia há bastante tempo. Ficamos por lá umas duas horas, tempo suficiente para sacar que o “animal homem” permanece o mesmo, desde a pré história.
Pegamos roupões, toalhas e sabonetes, entramos no amplo recinto equipado com espreguiçadeiras, cadeiras, piscina, bar, sala de massagens, sauna úmida e sauna seca. Devia ter uns trinta caras por ali.
Logo de cara, presenciamos um sujeito de uns vinte e oito anos, musculosinho, cheio de tatuagens, barbinha rala, copo de caipirinha na mão, dando um show com a toalha amarrada na cintura, dizendo bravatas bem alto, recheadas de palavrões, tendo como platéia os pobres dos funcionários do bar que, sem alternativa, ficavam assistindo, com as expressões mais simpáticas de que eram capazes, àquelas cenas dignas da tal da “vergonha alheia”.
Em dez minutos contando vantagens, o rapaz já tinha comido umas dez mulheres e dado porrada nuns vinte caras.
Resolvemos entrar na sauna seca, onde havia uns oito sujeitos. Sentamos no segundo degrau e logo em seguida entraram mais dois camaradas.
O fato de estar todo mundo pelado, influi decisivamente no comportamento de alguns inseguros que logo começam a dar demonstrações de que são machos empedernidos, como mostra o diálogo entre três deles, na faixa de uns trinta anos, sentados à nossa esquerda:
“Aí, cês vão na festa do Alcides hoje?”
“Eu vou. Será que vai bombar?”
“As festas do Cidão sempre bombam. Mas, ó, vai preparado porque tá cheio de vagabunda, tudo a fim de dar”.
Vou poupar os leitores do resto desse papo, porque a sucessão de grosserias com o sexo feminino foi constrangedora até para um Rafinha Bastos.
Saímos da sauna, tomamos uma ducha e nos acomodamos nas espreguiçadeiras.
O sujeito saradinho de barbinha continuava lá, falando mais alto ainda, agora dando demonstrações de como aplicara uma banda num desafeto numa boate. Em seguida, imitou a voz de uma moça e as palavras que ela teria murmurado prá ele na cama. Mais grotesco, impossível.
Ruddes, até então calado, começou a discorrer: “Você veja primo, que se passaram várias gerações e o homem continua exatamente o mesmo: machista, inseguro e exibicionista. Referem-se a uma mulher como se fosse uma inimiga e, pior, uma vadia. Ora, porque o homem quando está a fim de transar e transa, é considerado um grande macho, enquanto a mulher que tem os mesmos direitos, afinal é tão humana quanto, se também tiver vontade, é “vadia”? É o mesmo pensamento retrógrado de nossos tataravós, bisavós e avós. Nada, absolutamente nada mudou”
“Tem razão, Ruddes, quando vejo essas coisas entre os mais jovens, me vem logo à cabeça uma pergunta: ‘que tipo de conselhos o pai de um rapaz desses transmite prá ele em casa?’”
Ruddes, balançou afirmativamente a cabeça e, com aquele seu jeito franco de se expressar, comentou:
“Primo, essa vinda aqui na sauna, demonstrou mais uma vez que a imbecilidade masculina não escolhe classe social, como provam esses rapazes, dito “bem nascidos”. Outra coisa é que tenho pena das mulheres que topam com um cara desses. Orgasmo deve ser raridade”.
Lá fora, quando nos despedíamos, Ruddes deu seu toque final:
“Primo, sauna em que aquele pentelho tatuado exibicionista estivesse presente, deveria ser de graça”.
“Taí, Ruddes, ótima sugestão. Vou propor à direção do clube”.

Anúncios

Mensagens de amor na Linha do Tempo

Lindas mensagens de amor na Lina do tempo
Como muita gente sabe, Ruddes é o membro mais sincero e intolerante da família Boccattus, o que sempre reduziu bastante as possibilidades de ampliar o seu círculo de amizades na vida real.
Por ser resistente a novidades e avesso a mudanças em sua rotina, somente agora, há dois meses, resolveu entrar para o Facebook, e montou seu perfil com uma foto sentado na varanda de seu apartamento do Guarujá e as informações: paulista, 52 anos, divorciado, residente na capital, com escritório de contabilidade próprio.
Bastaram esses dados para Ruddes receber uma média de 20 solicitações de amizade diárias, 80% do sexo feminino. Achou estranho que tanta gente desconhecida quisesse ser sua amiga, mulheres de todos tipos, algumas com imagens poéticas no lugar dos rostos.
E decidiu ir selecionando e aceitando quem lhe mais lhe agradava.
Hoje já são 390 amigos e amigas, dos quais conhece realmente uns 60.
E os posts com imagens (a maioria com flores e anjos) e textos impregnados de amor, carinho e positivismo, não param de entrar em sua Linha do Tempo, deixando-o, como não era difícil prever, cada vez mais irritado.
Ontem viu publicado em seu perfil, um enorme buquê de rosas vermelhas com a seguinte mensagem, copiada para mais 497 pessoas: “A brisa do amor colheu essas rosas no jardim da alma e trouxe até você. AMO VOCÊS MEUS AMIGOS DO FACE!” E cada vez que um amigo da remetente, que se assina Katia Ternurinha da Aura, curte ou comenta esse post, Ruddes recebe no laptop e no Iphone. Já recebeu até agora, 183 mensagens. Só faltam 214.
Foi aí que o nosso impaciente primo, resolveu entrar no papo:
“Katia Ternurinha da Alma, a gente não se conhece e presumo que você não conheça a maioria das pessoas marcadas nesse post, correto?”
“Olá Ruddes, correto, são grandes amigos que fiz aqui no Face.”
“Bem, se você não nos conhece, como pode dedicar-nos tanto amor?”
“Para ser compartilhado, o amor não vê cara e nem coração, meu querido. Ele simplesmente emana da gente para preencher a alma dos outros, amenizar suas carências.”
Como imaginávamos, Ruddes continuou a conversa da única maneira com que sabe se expressar, ou seja, lotado de sinceridade.
“Mas, Ternurinha, a impressão que me dá, é de que a carente na verdade é você, postando mensagens para pessoas que nunca viu mais gordas, procurando obrigar os outros a gostar de você. Isso não seria uma espécie de chantagem afetiva?”
“Ruddes, infelizmente você não tem sensibilidade para ser meu amigo no Face. Vou deletá-lo, logo após esse papo. Não faço agora porque, diferentemente de você, eu sou educada”
“Se pensa assim, não posso fazer nada, Ternurinha. Mas acho que você poderia dedicar o tempo que fica aí sentada postando lindas coisas virtuais, para visitar em carne e osso, e levar seu imenso amor a orfanatos e asilos, por exemplo. Seria mais trabalhoso, menos charmoso e com pouca visibilidade, mas muito mais efetivo. O que você acha?”
O papo acabou com a sumária exclusão de Ruddes, da lista de amigos de Ternurinha.

As descoladas do Face

As descoladas do Facebook
Bate papo em grupo fechado “Almas Luminosas” do Facebook:
Leleca: “E então amiga, como vai o Peter? E os filhos?”
Mirinha: “Estão todos ótimos, amiga… E Laércio e os seus?”
“Também estão bem. Vou com eles prá Campos amanhã. Laércio fica trabalhando e sobe nos finais de semana”.
“Eu também vou, Lé. Só que na semana que vem. Peter também fica e vai de quinze em quinze dias”.
“Você foi ao JK, Mi?”
“Fui, logo no primeiro dia do shopping. O que é aquilo, amiga? Uma hora prá estacionar, duas na fila de espera para almoçar. Só consegui ir na Zara, comprei umas blusas e uns vestidos prá minha empregada. Na correria para inaugurar, não deu tempo da loja trocar as etiquetas. Os preços estavam em euros. Acabei pagando assim mesmo, tanto que as etiquetas ainda estão em casa. Foi três vezes mais caro, vale como momento histórico”.
“Também fui à inauguração, demorei a mesma coisa que você pra estacionar e almoçar, mas comprei na Top Shop e os preços estavam em reais. Uma pena, acho que pagar em euros é muito mais diferenciado!”
“Olha, parece que as etiquetas da Tory Burch ainda estão dólares. Quem sabe você indo lá hoje, consegue! Dólar não é tão charmoso quanto euro, mas é bacana”
“Ah, Mi, hoje não vai dar. É um dia muito especial que eu e Laércio comemoramos mensalmente!”
“Ah, é! Posso saber de que se trata ou é segredo?”
“Prá você eu conto, Mi: todo dia quinze eu e Laércio fazemos amor!”
“Que delícia, Lé! E que inveja! O dia programado por mim e Peter é 25,
ainda faltam dez…”
“Ah, Mi, dez dias passam voando…Bem, querida, agora eu tenho que ir ao Wanderley Nunes me embonecar, ficar lindinha esperando o Laércio. Depois a gente continua o papo”.
“Ah, amiga! Falei que o Peter me deu um Tucson 2014?”
“Que presente gostoso, Mi! Mas o Laércio também foi um doce comigo e na semana passada me presenteou com uma CRV, zero bala…Um dengo!”
“Pois é amiga, devemos agradecer aos céus por sermos tão felizes!”
“Concordo plenamente, amiga! Prá reforçar essa coisa profunda que você acabou dizer, olha que linda a frase que estou postando agora no nosso grupo: “Cultive os bens espirituais, porque os materiais são perecíveis!”
“Muito lindo, minha amiga! Não é à toa que o nosso grupo se chama Almas Luminosas! Aliás, na sexta temos jantar beneficente na casa da Marietinha, com renda revertida para os índios Tuxupé Caramã do Himalaia. Você vai de que?”
“Eu acho que vou de Balenciaga bege, com apliques em ouro branco. E você?”
“Ainda não pensei na roupa, mas com certeza vou com o camafeu de brilhantes que o Laércio me deu no ano passado em Milão. Faz tempo que eu não coloco ele.”
“É isso aí querida, o que é bonito é para se mostrar. Bem, agora vou curtir e compartilhar o seu post. Beijos de luz em sua aura!”

Casais adoráveis

Casais adoráveis

Por freqüentarem o mesmo local na praia de Pitangueiras, os casais acabaram se conhecendo. A empatia foi imediata. Rodolfo e Dininha, “dois amores de pessoas”, deram-se muito bem com o Diogo e a Viviane, também “uns doces de pessoas”. As idades dos quatro, muito próximas, elas com uns quarenta e oito anos e eles, mais ou menos cinqüenta e dois, favorecia ainda mais a integração. Bateram animados papos naquela manhã ensolarada de fevereiro, como já se conhecessem há muitos anos. Os homens, sentados sob o guarda-sol, educados, respeitosos, pessoas de bem, concordavam em quase todos os pontos de vista, sobre a atual conjuntura. Elas, mais afastadas um pouco, espichadas nas cadeiras na beira d’água, comentavam sobre os filhos, roupas, amigas e uma ou outra fofoca divulgada pela mídia. Que ótimo terem se conhecido! A partir de agora poderiam desfrutar das companhias uns dos outros, no Guarujá.
Combinaram almoçar juntos assim mesmo, de biquínis, sungas e camisetas, ali pertinho, no Chopp Halle, onde o camarão com catupiry é “imbatível”, unanimidade entre os quatro.
Saíram da areia e caminharam descontraídos pelo calçadão. Os maridos seguiam na frente e as esposas um pouco atrás. Melhor assim, porque se fosse ao contrário, poderia causar alguns desconfortos. Vai que o Diogo ficasse inseguro, desconfiado de que o Rodolfo olhava disfarçadamente para a bunda da Viviane. Ou, o outro lado da moeda, a retaguarda da Dininha pudesse, sob o ponto de vista do Rodolfo, tornar-se alvo do Diogo.
Não que ambos os traseiros merecessem qualquer atenção, mas, marido sabe como é, supervaloriza o que considera sua propriedade, acha sempre que tem alguém de olho, mesmo que o produto não seja dos mais atraentes.
O almoço regado a chopp, foi muito agradável. Não totalmente descontraído porque, afinal de contas, num primeiro contato, fica-se meio tenso, controlando-se para causar boa impressão e não ser alvo de comentários desairosos, posteriormente.
Despediram-se na porta do restaurante, combinando de se reencontrarem no fim de semana seguinte.
Já a sós, Dininha perguntou para o marido: “E aí, gostou deles?”
“Um casal simpatiquinho, mas, sinceramente, não sei não, acho que o tal do Diogo tem algo de boiola. E você, o que achou?”
“Também achei um casal legal, mas, prá falar a verdade, essa Viviane é meio casca grossa”.
Caminhando do outro lado da rua, Diogo fez a mesma pergunta e Viviane respondeu:
“Olha, é um casal prá gente conviver em doses homeopáticas. A Dininha parece uma matraca. Pelo menos você se deu bem com o marido dela, né?”
“É, parece ser um bom sujeito. Porém, devido a alguns comentários dele, muito superficiais, mas que minha experiência não deixou passar em branco, tenho certeza de que o Rodolfo tem problemas de ereção”.
Se tivesse presenciado essa estória, certamente vovó Boccattus teria aplicado uma de suas máximas: “A insegurança é o veneno das relações humanas”.