Está no Einstein

Está no Eisntein

Os muitos anos de vida em São Paulo deram a Gillus a percepção de que uma das obssessões de determinada camada social da Terra da Garoa é exibir poderio financeiro. Em reuniões, almoços, jantares, joggings matinais, o papo aborda sempre aquisições de carros poderosos, casas de praia, sítios, fazendas, viagens etc.

Curiosamente, um dos símbolos mais interessantes dessa pseudo-elite chama-se Hospital Albert Einstein.

Dizer que ficou uma semana internado no Einstein é a glória. Comentar que o marido “está no Einstein” define o nível de quem fala.

“Está no Einstein” é uma espécie de selo ISO de padrão de vida, o certificado para integrar determinada casta paulistana.

O sujeito pode ter sido submetido a um monte de cirurgias no Einstein, extraído metade do corpo, saído de lá um cotoco de gente, mas só o fato de poder dizer “passei dois meses no Einstein”, é uma grande satisfação, a realização maior do ser superior.

Gillus tem um amigo, Gumercindo, o Guma, que trabalha na Bolsa. Duro de nascença, mas esperto de vivência, ficou rico com essa história de “está no Einstein”.

Quando percebeu o efeito da frase mágica, Guma montou uma estratégia: de seis em seis meses escolhe três dias e não atende a ninguém. Sua secretária fica instruída de informar que “o dr. Gumercindo está no Einstein, teve uma indisposição gástrica. Infelizmente, por ordem dos médicos, as visitas estão proibidas e o número de seu apartamento no hospital não é divulgado”.

Vejam só a picardia do Guma: além de “estar no Einstein” é atendido não por um, mas “por médicos”, e “o número de seu apartamento não é divulgado”. Em pouco tempo, o dr. Gumercindo se tornou um ícone. A clientela se multiplicou e Guma ficou milionário.

Que ninguém nos ouça, mas ele tem pavor de hospital e jamais botou os pés no Einstein.

Com uma saúde de ferro, nunca foi operado e, nas poucas vezes em que precisou, o dr. Belmiro, seu médico há mais de vinte anos, o atendeu em casa.

 

Botando ordem na casa

Botando ordem na casa.

Macchus Boccattus é o primo mais boçal e retrógrado de Gillus Boccattus.

Machista até a medula, Macchus acha que só existem dois tipos de mulheres: as bem comidas e as mal comidas.

Para ele, todas as reações femininas, boas ou más, são conseqüências imediatas de suas vidas sexuais. Macchus não evoluiu com a revolução sexual, mantendo o mesmo conceito dos tempos de outrora, quando uma mulher que se comporta plácida e serenamente é considerada bem amada, enquanto que outra, irritadiça e nervosa, recebe o diagnóstico simplista de que “tá carente”.

Por causa desse seu modo de ser, Macchus muitas vezes torna-se extremamente inconveniente em reuniões sociais, provocando inamistosas manifestações, principalmente, por parte da ala feminina.

Porém, por incrível que pareça, as análises e conceitos de Macchus encontram seguidores entre muitos de seus amigos.

Um exemplo disso aconteceu outro dia na casa do Torquato e da Vanelice. Vários casais comemoravam o aniversário de casamento dos anfitriões quando, na rodinha de amigos, o Joel fez um comentário meio inesperado sobre a própria mulher: “Uma das coisas que mais me deixam chateado é quando a Juciara usa essa calça comprida apertadíssima e essa blusa com um baita decote. Se eu reclamo, me fuzila com o olhar e me chama de repressor. Perco até a vontade de sair de casa”.

Fez-se silêncio na roda, todos deram uma sacada no visual da Juciara, constataram a veracidade do comentário do Joel, e depois se voltaram para Macchus, como que

ansiando por alguma manifestação do mestre. Macchus cuspiu para o lado, deu uma bolinada no próprio saco e lascou: “Joel, só existe uma solução: sempre que vocês forem a alguma reunião social, umas duas horas antes dê um trato caprichado na Juci. Mas capricha mesmo, dá tudo de si, mostra pra ela que dentro de casa existe um tesouro chamado Joel e que é besteira ela garimpar em outras paragens, porque só vai encontrar pepitas de muito menor valor”.

Novo silêncio na rodinha, todos meditando sobre as sábias palavras do mestre, até que Joel se pronunciou: “Obrigado, Macchus, vou seguir sua orientação. Na semana que vem nós temos o aniversário do Vanderlei, será um bom teste”.

Chegado o dia da festa, todos compareceram com uma expectativa extra: como estaria produzida a Juciara?

Quase na hora do bolo e nada de Joel e esposa aparecerem.

Quando todos já achavam que o negócio tinha degringolado, eis que o casal adentra o salão. Joel com um sorriso triunfante e Juci, agarradinha em seu braço, olhar plácido e meigo, vestia uma calça comprida que de tão larga parecia bombacha e uma blusa tão fechada que lembrava hábito de noviça.

Depois de parabenizar o aniversariante, Joel aproximou-se dos amigos que o fitavam boquiabertos, deu um grande abraço em seu guru e agradeceu: “Macchus, valeu! Prá não ter erro, me precavi com um Viagra Super Plus e dei uma ampla e irrestrita geral na Juci, que, extasiada e, sem eu falar nada, foi até o armário, pegou todas as calças apertadas e blusas decotadas, picotou com a tesoura e jogou no lixo. Caprichei tanto que quase não chegamos a tempo de cantar os parabéns”.

O cretino do Macchus Boccattus, sentindo-se dono da situação, fez sua derradeira exibição da noite, filosofando calhordamente: “Meus amigos, é preciso manter sempre a ordem na casa. Se deixar as coisas fora de lugar por muito tempo, depois fica muito difícil arrumar”.

 

Lua de Mel no Facebook

Lua de Mel no Facebook

“Enfim sós!”

“Enfim, meu amor!”

“Gostou dessa pousadinha que eu escolhi prá nossa honey moon?”

“Amei! Ficar sozinha com você é um sonho… Adoro o campo, principalmente quando chega o entardecer…”

“Eu gosto mais do amanhecer…”

“Mas essa noite estrelada está maravilhosa! Posso colocar mais vinho prá você?”

“Claro! Hoje, na nossa primeira noite, quero ficar do jeito que o diabo gosta!”

“Vamos curtir um monte nesse quarto…”

“É, mas sem compartilhar…”

“Tem certeza? Estou sentindo um pouco a falta do Face. Que tal a gente tirar uma foto agarradinhos, bebericando aqui na lareira? A gente posta pros nossos amigos saberem o quanto somos felizes!”

“Assim mesmo? Eu de cueca e você de calcinha?”

“Claro que não, Ederaldo! Eu boto o pegnoir e você como está, sem camisa, pro pessoal ver que eu casei com um homem de peito cabeludo”

“Pronto, ficou ótima! Vou postar!”

“Agora, chega mais prá cá, amor, tenho mil beijinhos guardados prá você!”

“Humm, que delícia, amore! Vou colocar o celular em cima da mesinha de cabeceira, pronto prá fotografar a gente se beijando.”

“Deixa eu ver como ficou! Excelente, você está super fogoso, pera aí que eu vou postar. Nossos amigos vão ver como vivemos um conto de fadas…”

“Vamos continuar e ir pros finalmente? Me abraça, me beija, jura que me curte, mas que jamais vai me compartilhar!”

“Humm, estou decolando, meu amor, acho que vou voar!”

“Pera aí, aguenta firme, vou documentar esse momento e postar, todo mundo vai ficar babando diante do sonho que a gente vive.”

“Foi maravilhoso, meu bem, estou morto. Deixa ver como ficou a foto.”

“Ficou incrível! Seus olhinhos estão revirados, parece aquela cena da Linda Blair no Exorcista. Brincadeirinha…mais real impossível, vou postar, os amigos vão ficar impressionados com a intensidade dos nossos orgasmos…”

“Vamos descansar em posição de conchinha? Antes, prepara a foto. Com esse post, todos vão ver que nosso amor é completo, com começo, meio e fim!”

“Mais que completo, é mágico! Amanhã, assim que a gente acordar, vamos checar as curtições e compartilhamentos de nossa Lua de Mel”.

“Mas antes vamos finalizar colocando mais esse post aqui: “Ederaldo e Joselaine, a gente se basta!”

“Excelente!”

“Boa noite amor, te curto demais!”

“Também te curto, querida! Boa noite!”

 

 

 

 

Na Praia de Ipanema

Na praia de Ipanema (2)

Tem coisas que só podem acontecer no Rio de Janeiro.

Sábado ensolarado na Cidade Maravilhosa, resolvi dar um mergulho na praia de Ipanema.

Mar calmo, praia lotada às 4 da tarde, abri a cadeira, sentei-me perto d’água e me entreguei a um dos meus maiores prazeres: observar o vai-e-vem das mais diferentes e incríveis figuraças. Logo resolvi dar um mergulho e depois fiquei por ali, de pé na beirinha, curtindo a água pelos joelhos.

Aproximou-se um sujeito de seus 50 anos, short grande de pano, parecendo estar-se esbaldando no mar.

“Praia sem sol e sem mulher bonita não é praia, já dizia o grande Vinícius de Moraes”, disse ele.

“É mesmo”, concordei, sem nenhuma certeza de que Vinicius falou aquilo mesmo.

“Isso aqui era o paraíso dele”, emendou o homem.

“É verdade. E, pelo jeito, você é fã do Vinícius. Viu o filme sobre ele?”, procurei retribuir à simpatia do homem.

“Vi duas vezes. E tô com vontade de ver a terceira.Tu sabe porque Vinícius morreu?”

“Por quê?”, perguntei curioso.

“Porque ele adorava uísque, bebia muito e não comia. Tu, por exemplo, gosta de beber vodca, mas não deixa de se alimentar, né? Isso faz muita diferença.”

“É mesmo”, respondi ao mesmo tempo em que procurava entender porque o sujeito achava que eu era bebedor de vodca.

“Vinícius sabia viver, né? Comeu muita mulézinha por aqui, né?”

“É”, respondi meio cabreiro, com a nítida impressão de que ele estava me achando contemporâneo de Vinícius.

Por via das dúvidas, encolhi a barriga.

O homem, então, concluiu:

“O Vinícius poderia estar vivo até hoje se tivesse se cuidado. Mas, se tivesse se cuidado, talvez não tivesse vivido tão bem. Morreu feliz. Pior é que a maioria desse pessoal que a gente tá vendo aqui na praia nunca vai curtir a vida como ele. Tem nego que vai durar cem anos, sem ter vivido dez.”

Em seguida, deu tchau, saiu da água, vestiu uma camisa e um boné verdes, ajeitou nas costas um isopor do Matte Leão, um saco grande de plástico cheio de biscoitos Globo na mão direita e saiu pela praia anunciando alto os seus produtos.

O Café das desesperadas

O Café das desesperadas

Quando está em São Paulo, Ruddes gosta de passear por alguns pontos, divertindo-se como voyeur. Para observar o comportamento da classe média deslumbrada, tem algumas preferências: o mercado Varanda, a Livraria Siciliano da ponte Cidade Jardim, o Pão de Açúcar da praça Panamericana e o Shopping Iguatemi. Esse último é o seu preferido. E, dentro do shopping, o café que fica no terceiro piso é imbatível. Ali, ele é capaz de passar horas sentado, bebericando água e capuccino, curtindo a artificialidade das deslumbretes mais maduras. Ruddes chama o local de Café das Desesperadas.

Entre 35 e 55 anos, quase sempre acompanhadas de uma, duas ou três amigas, carregando sacolas de lojas de grife, elas circulam com ares de integrantes do exclusivo circuito fashion paulistano.

Sempre arrumadas e maquiadas inadequadamente para o horário e local, sentam-se em torno das mesinhas para verem e serem vistas e, quem sabe, encontrar o príncipe do Iguatemi, que surgirá com uma sacola Ermenegildo Zegna, ou Hugo Boss, ou Ralph Lauren nas mãos (portadores de sacolas Richard’s não são totalmente descartados, podem funcionar como estepes).

Elas ficam ali, prestando meia atenção na conversa e meia na ala masculina circulante. Tentam ter postura zen, mas as expressões são ansiosas. O tempo vai passando, nada do príncipe aparecer. A possibilidade de mais uma noite, mais um final de semana grudadas no facebook vai se tornando cada vez mais real.

As exigências começam a diminuir. Até que aquele gato com sacola da Renner na mão é bem jeitosinho… Ou aquele com um embrulho da C&A, charmosinho, né? O loiro baixinho com um pacote da Casa das Cuecas é bem fofinho, não acham?

Depois de 3 horas na base de café e água, hora de ir embora, salve-se quem puder.

Até chegarem ao estacionamento, a esperança é a última que morre. Será que aquele segurança morenão, que fica em frente às Lojas Americanas, vai trabalhar neste final de semana?

Ziriguidum, oi!

ziriguidum

No primeiro sábado de fevereiro, como acontece há cinqüenta e cinco anos, o “Espreme que ainda dá caldo”, reuniu-se na casa de tia Rubbias para concentração e aquecimento. Fundado por tia Tarsillas, na época uma exuberante balzaqueana, o bloco atualmente é formado, em sua grande maioria, por veteraníssimos foliões. Tirando um ou outro que partiu dessa para melhor e alguns que já não apresentam as condições físicas mínimas para encarar o tranco, o pessoal continua firme. É claro que, com o passar do tempo, o trajeto do desfile foi encurtando e, hoje, o que antes tinha como percurso um bairro inteiro, resume-se a uma volta no quarteirão, mais ou menos uns quatrocentos metros. Mas a animação continua a mesma, com cerca de quinhentas pessoas, sendo que apenas vinte por cento representados pelas novas gerações. Quem segue na frente marcando o compasso é a passista Lourdilene, cozinheira de tia Rubbias há cinco décadas, mulata com pouco mais de metro e meio de altura, mas detentora de glúteos gigantescos que, mesmo já inseridos na terceira idade, mantém-se razoavelmente empinados e em excelentes condições de remelexo.

Lourdilene tem um vício incontrolável que se manifesta, com mais freqüência, na época de carnaval: cada vez que escuta uma batucada, entra em transe e dispara a requebrar, interrompendo, no ato, o que estiver fazendo. Não foram poucas as vezes em que, ao escutar o som da Globoleza na TV, ela deixou cair a louça e, instantaneamente, deu início ao rebolado, sorriso de orelha a orelha, virando a cabeça prá lá e prá cá. E só apaga o facho quando o batuque pára.

Após duas horas de concentração, calibrando com cerveja, rabo de galo e caipirinha, o “Espreme” deu a partida com Macchus Boccattus ao microfone puxando o samba de 2010, “Esplendor, Glória e Miscigenação do Maracatu, nos Tempos Encantados do Libidinoso Marquês de Sapucaí”, de autoria de Zezinho da Birosca e Toinzinho da Laje, ambos compositores de Escolas do Segundo Grupo. Os mais atentos não entenderam a “miscigenação” e muito menos o “libidinoso”, havendo dúvidas se os compositores conheciam os significados dessas palavras e se o famoso Marquês realmente fazia jus a tal qualificação.

Em termos de desfile, verdade seja dita: os veteranos componentes do bloco sempre fazem bonito, botam prá quebrar na base da experiência, como o Alamiro que, mesmo em cadeira de rodas devido à artrose avançada, brilha mais do que muita gente na flor da idade.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Em Em pouco mais de três horas o bloco deu a volta completa e retornou à casa de tia Rubbias.

Essa, hors-concours em animação e exibindo incrível disposição para seus oitenta e oito anos, convidou a todos para a saideira, sob a frondosa mangueira do quintal.

Como era de se esperar, o ambiente, apesar de muito grande, congestionou e muitos não conseguiram entrar. Com os tamborins calados, grupos se formaram e o bate-papo se espalhou pelo local. Quem estava próximo às cadeiras de balanço, por exemplo, pode assistir ao diálogo entre duas gerações da família Boccattus, com o garoto Brunnus de um lado e sua tia-bisavó Tarsillas do outro: “tia, eu já reparei que todas as passistas sambam igual. É sempre assim? E como eles fazem prá escolher a melhor nesses concursos que tem por aí?”

“Meu querido, sempre foi assim. O repertório é curto, com os mesmos passos, os mesmos trejeitos, os mesmos rebolados, os mesmos sorrisos escancarados. Na hora de escolher a passista vencedora, o júri analisa tudo, mas o fator determinante, o diferencial em termos de talento, está no tremelique das nádegas”.