As flores do jardim do nosso Face

As flores do jardim do nosso Face

Um dos grandes fenômenos do Facebook está no fato de que ele possibilita a uma pessoa, ter dupla personalidade. O Evanilton é um caso típico: na vida real, sempre primou pela ausência de sensibilidade, chegando mesmo a se consagrar como um autêntico casca-grossa, o que reduz bastante suas chances com grande parte do chamado sexo frágil, não só por sua forma tosca de se expressar, como também pela maneira como se comporta, nem bem conheceu a moça, agindo como se estivesse entre amigos num vestiário de futebol, logo após a pelada. Ou seja, educação, compostura e delicadeza zero.

Infelizmente isso é uma coisa instintiva que, por mais que ele se esforce, não consegue controlar.

Porém, um outro Evanilton começou a surgir no dia em que resolveu abrir uma conta no Facebook. Fugindo às suas características, começou quietinho, observando as pessoas e os posts, e logo percebeu que se ele se apresentasse com é, nu e cru, iria se dar mal. Sacou que homens sensíveis, poéticos, atenciosos, gentis e galanteadores faziam sucesso e que essa seria a linha a ser adotada. E, resolveu caprichar, já que não estando fisicamente na presença das moças ele se mantém lúcido e consegue não descambar para o vexame. E fez uma observação prá si mesmo: “Pô, o problema é que a concorrência no Face é muito acirrada, todos os homens são príncipes encantados!”

Mas resolveu ir à luta. Como imagem de capa, fez montagem de uma foto dele deitado sobre uma cama acolchoada por azaléias floridas, segurando nas mãos um livro que encontrou num sebo e que deve ser tão raro que ninguém conhece, mas que ele escolheu por causa do título e exibe com a capa bem visível: “Em cada flor reside uma bela mulher”. E como legenda lascou: “Preparando-me para o soninho, inebriado pelo perfume de maravilhosas e coloridas fêmeas”. E identificou-se como “Evanilton, um colibri vadio”

Deu tão certo que logo no primeiro mês ele conseguiu trezentas e sessenta amizades femininas, sendo que todas curtiram a foto de capa com comentários do tipo desta, postada por Edileninha Sol Poente: “Colibri vadio, as flores é que roubam o perfume de ti”, pegando carona na bela composição do mestre Cartola.

E o nosso colibri vadio fez tanto sucesso que, em seis meses, já contabilizava quase duas mil amizades do sexo oposto.

Durante esse tempo ele não apresentou qualquer deslize, manteve a personalidade de macho doce e sensível e, por cautela, dando desculpas para várias afoitas que jogavam charminho, sugerindo um encontro tête a tête.

O problema de aceitar um convite, é que ele tinha dúvidas se conseguiria manter a personalidade assumida no Face, durante um encontro real.

Porém, o destino permanece na espreita, aguardando o momento certo prá se manifestar.

E acabou acontecendo: o suave colibri vadio vidrou numa descolada paulistana, morena de longos cabelos negros, 34 anos, viúva, sem filhos, moradora do sofisticado Jardim Europa, que costuma passar metade do ano no Brasil e a outra metade, viajando pelo mundo, e cujo sobrenome oferece uma pista sobre sua condição social: Evelyn Mattarazzo Diniz de Bardela. Depois de muito papo “in box”, ela propôs se conhecerem pessoalmente, sugerindo o elegante restaurante Fasano. Por essa proposta, a gente pode perceber que a situação está difícil até para mulheres do naipe da Evelyn.

Enfeitiçado pela graça e pelo status social da moça, Evanilton topou o convite, pegou uma grana e a BMW emprestadas com seu primo Cadu, caprichou no visual e, às 21 horas, estava diante da mansão da morena, que surgiu linda, linda, linda…

Durante o trajeto, tenso e com medo de se revelar, o colibri vadio limitou-se a conversar monossilabicamente, facilitado pelo fato de que a moça gostava de falar.

Sentaram-se no restaurante e o maitre, cheio de rapapés, apresentou a carta de vinhos e o cardápio.

Ao olhar os preços, Evanilton começou a ficar nervoso e uma terrível dor de barriga foi se apossando de seu corpo e de sua alma. Desesperado, tentando manter a situação sob controle, o colibri vadio, com os olhos esbugalhados não agüentou mais, levantou-se bruscamente e, apertando a barriga meio curvado, gemeu para sua perplexa acompanhante: “Guenta aí que eu vou lá dentro soltar um barro!”

 

 

 

 

 

 

 

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Mattinhus, a cura

Mattinhos, a cura

 

Simpático, inteligente e querido por todos, aquele homem de pouco mais de 1,50 m de altura guarda em si um enorme segredo, responsável pela felicidade de um grande contingente feminino.

Dia desses, ele passeava pela cidade serrana de Teresópolis em busca de pequenos enfeites para a sala de sua residência, quando se deparou com uma vitrine repleta de lindos duendes de cerâmica. Achou interessante o nome da loja: A Grandeza do Espírito.

Entrou e foi recebido por uma mulher exótica, vestindo roupas dos anos 60 e uma estrela colorida presa nos cabelos enormes e crespos, eletrizados, repartidos ao meio.

“Bom dia”, disse ela, com um sorriso zen-tenso. “Bom dia”, respondeu Mattinhus com seu sorriso cativante.

Explicou que queria saber o preço dos duendes da vitrine.

Dali pra frente, engataram um papo que Miríades, a dona da loja, conduziu para um complicado esoterismo-cabeça-feminista.

Em posição de lótus, falando e gesticulando nervosamente, além de abordar as coisas do espírito, ela opinava que a relação homem-mulher só seria completa se o homem, enquanto companheiro, assumisse, integralmente, as tarefas domésticas. E quanto à alimentação, o ser humano só conseguirá alcançar o Eu Superior por meio de grãos e verduras orgânicos, abstendo-se totalmente de açúcar e alimentos de origem animal.

Mattinhus olhava meio cabreiro para a mulher e recusou suas ofertas para botar cartas de tarô, depois runas e até búzios. Mas, aceitou uma massagem acompanhada de florais de Bach, ao som do CD do cravista indiano Mahagoti

Acomodaram-se na saleta ao lado, luz mortiça, repleta de astros, estrelas, fadas, duendes e deuses das florestas.

Mattinhus, só de cuecas, deitou-se de bruços sobre a maca, enquanto Miríades iniciava uma massagem com óleo de Vrabanjha, planta característica da Terra do Sol Resplandecente.

O toque de Miríades foi causando uma forte sensação em Mattinhus que, descontrolado, sentia que uma inoportuna ereção ia, aos poucos, servindo-lhe de guindaste, feito macaco de automóvel. Em pouco tempo, Mattinhus estava suspenso a quase dois palmos da maca, equilibrando-se em seu fantástico segredo.

Miríades, que acreditava em duendes, embasbacada, não conseguia acreditar no que estava vendo. Fabuloso!

Aquele era, seguramente, o tão procurado Nirvana. Sim, ela estava diante do Grande Mistério do Universo!

Dali em diante, a massagem deu lugar a uma exuberante performance amorosa que só terminou ao amanhecer.

Miríades despertara em êxtase, flutuando. Agora tinha certeza de que o nome de sua loja era uma premonição: ela acabara de conhecer a Grandeza do Espírito. E era muito maior do que ela jamais poderia imaginar.

A vida de Miríades mudou. De cabelos lisos, adora cozinhar para Mattinhus e trocou os produtos da loja, passando a vender roupinhas de bebê.

E espera ansiosa a chegada da quinta-feira, quando Mattinhus sobe a serra.

Nesse dia, Miríades o aguarda com suas delícias prediletas: leitão à pururuca e, de sobremesa, banana split com sorvete de chocolate, creme e morango.