Casal companheiro

Casal companheiro

Bezerra e Matilde estão numa fase em que tudo vira discussão e os desentendimentos não tem hora prá começar. Apareceu a chance e lá estão eles batendo boca, trocando acusações, botando culpa um no outro, enfatizando erros do passado e injustiças do presente. Invariavelmente terminam emburrados, com cada um cantarolando no seu canto, em altura suficiente para o outro escutar, seus repertórios pessoais, sendo que Bezerra prefere Grito de Alerta, “às vezes você me azucrina, me entorta a cabeça, me bota na boca um gosto amargo de fel…”, enquanto Matilde ataca de Fim de Caso, “eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar, há um adeus em cada aceno em cada gesto em cada olhar…”. Verdade seja dita: ambos tem uma incrível resistência emocional, que chega a beirar às raias do sado-masoquismo.

Na quinta-feira passada, seguindo os conselhos de sua amiga Rosa Láctea, Professora de Expressão Espírito-corporal e Taróloga Jungiana, Matilde resolveu “discutir a relação de forma adulta e visceral” com o marido: “Bezerra, o que falta fazer para eu lhe deixar feliz?”

Esse pensou por alguns segundos e respondeu: “ser minha companheira!”

“E o que você quer que eu faça para cumprir esse papel?”

“Que você participe dos meus momentos.”

Bem, já que havia iniciado, Matilde não podia parar, tinha que levar a “abordagem da relação” até o fim, o que, se ela soubesse antes teria preferido ficar quieta.

A programação começou no sábado quando foram assistir no estádio do Pacaembu ao jogo do Palmeiras e Corinthians, no meio da torcida do Porco, paixão do Bezerra. Foram noventa minutos de verdadeiro martírio, com a Matilde achando tudo absolutamente insano.

Dali eles seguiram pro bar do Pimpão, onde Bezerra e os amigos enxugaram mais de duas dúzias de cerveja, embalados por um papo de zerar QI. Por várias vezes Matilde teve ímpetos de sair correndo, mas lembrou-se dos conselhos de Rosa Láctea de que “mapear o universo do Bezerra” seria fundamental nesse processo de desvendar os “egos” e os “ids”.

Prá finalizar, passaram o domingo no Pesque & Pague do Valtão, dentro de um barquinho no meio do lago, das dez da matina às quatro da tarde, quando finalmente, justiça seja feita, o Bezerra fisgou um peixão de respeito. Voltaram prá casa com o marido todo orgulhoso contando vantagens sobre pescarias do passado, como a comprovar que ele, além de craque no futebol, era um Ás do anzol.

Chegaram ao doce lar e o Bezerra, com ar de campeão, avisou: “Matilde, vou tomar um bom banho e cair na cama. Será que você limpa o peixe prá amanhã?”

Matilde foi até a cozinha, pegou o facão e se dirigiu ao marido: “meu amor, já que eu estou com a mão na massa, que tal limpar você também?” E partiu com tudo prá cima do Bezerra que, rápido como um raio conseguiu trancar-se a tempo no banheiro. Já está lá há dois dias e a Matilde permanece na porta. Estão negociando a participação do Bezerra “no universo de Matilde”. Ele já aceitou passar o próximo final de semana olhando vitrines no shopping. Mas, Matilde quer muito mais: orgasmos múltiplos, quem sabe?

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