O aniversário de Juciara no Facebook

O aniversário de Juciara no Facebook

Dia 02/11

“Minhas queridas amigas e meus queridos amigos de Face, esse post é dedicado a vocês: há oito meses, quando saí do Maranhão para vir morar em São Paulo, fiquei preocupada, não conhecia ninguém e a cidade tinha a fama de ser fria, pouco receptiva, desfavorável a se estabelecer novos relacionamentos. Realmente, no início não foi nada fácil, fiquei restrita aos colegas do banco onde trabalho. Mas aí entrei para o Facebook e tudo virou um sonho. Claro que minha personalidade expansiva ajudou. Hoje tenho 4.973 amigos, sendo que, 3.120, são de São Paulo. É uma enorme felicidade saber que tenho tanta gente querida, sincera, leal, sempre ao meu lado pro que der e vier, seja na alegria, ou na tristeza, que vibra com minhas vitórias. Obrigada por vocês existirem. Meus amados e minhas amadas, tenho um convite muito importante e carinhoso para fazer: esse é o mês de meu aniversário e, para comemorarmos juntos, reservei para o dia 18 próximo, a partir do meio dia, o espaço de convivência do Freguesia do Ó Esporte Clube, do qual além de vizinha, sou sócia. Graças ao 13º salário, ao cheque especial e a uma poupança, pude organizar, um grande churrasco com cerveja Itaipava para 3 mil pessoas.

Conto com todos vocês, meus queridos. Claro que não posso exigir que os amigos e amigas dos outros estados estejam presentes, mas os daqui de São Paulo, faço questão de dar um beijo pessoalmente em cada um. Peço que confirmem presença aqui pelo Face. Beijos no coração!”

Dia 12/11

“Minhas amigas e meus amigos, estou uma pilha de emoções! Até agora, 2.610 confirmaram presença, 198 responderam talvez e apenas 12 justificaram, informando que, devido a problemas particulares, infelizmente não poderão estar presentes, mas, que estarão conosco em espírito. Vocês são demais, meus amigos! Beijos na alma!”

Dia 17/11

“Meus amores, que coisa maravilhosa! 3.011 disseram sim, ao encontro de amanhã! Graças a vocês, será o dia mais feliz de minha vida! Tenho certeza de que nossas amizades vem de outras vidas. Adoro-os! Beijos na aura!

Dia 19/11

“Compareceram ontem ao meu churrasco de aniversário, somente os meus colegas do banco, Toninho da compensação, Pamela do caixa, Gilcilene da gerência e Adenilton da tesouraria. Sobraram seiscentos quilos de carne e sete mil cervejas. Ontem e hoje recebi aqui no Face, mais de duas mil mensagens hipócritas de vocês. Peço que as introduzam em seus respectivos orifícios. Beijos no coração, na alma e na aura é o cacete! Estou deletando meu nome desse circo de ilusões! Adeus!”

O conceito de felicidade

O conceito de felicidade

Procuro reservar as noites de quarta feira para visitar e jantar com tia Rubbias em sua espaçosa casa em Pinheiros. Nessa última, a salada de folhas verdes, pêras e nozes, seguida de um divino nhoque ao molho de gorgonzola, me fizeram mais uma vez concluir que durante sua longa, intensa e variada vida amorosa, titia não só enlouquecia seus affaires sob os lençóis, como também os hipnotizava com as delícias que colocava sobre a mesa.

Mas o melhor sempre vem depois, enquanto sorvemos o café de coador e o licor de jenipapo: sua saborosa prosa, com observações agudas e pertinentes.

Aos 86 anos, tia Rubbias se mantém absolutamente informada, sendo capaz de discorrer com propriedade, sobre qualquer assunto.

Dessa vez, devido a uma reportagem de três páginas publicada em tradicional revista semanal, titia resolveu expor seu ponto de vista sobre determinada tendência contemporânea:

“Nos dias de hoje, muita gente acredita que a felicidade está diretamente ligada à exposição pública daquilo que considera êxitos pessoais, dignos da admiração alheia. Não basta se sentir feliz com alguma conquista ou um especial momento, é preciso que os outros tomem conhecimento, admirem, corroborem, prescrevam uma espécie de “atestado de felicidade”.

Talvez por isso, vivamos tempos de narcisismo, egocentrismo e exibicionismo desvairados. E como tudo que tende ao exagero, corre sério risco de cair no ridículo.

A disputa pelo rótulo de celebridade tão bem explicitada nas revistas e colunas de frivolidades é a melhor ilustração desses tempos. As pessoas ali, todas sorridentes, exibindo suas casas, suas fortunas, suas plásticas, suas dietas, suas caras, suas bocas, seus botox, seus implantes, seus talentos às vezes duvidosos, como a nos informar: “viram como eu sou feliz? Viram como eu vivo um conto de fadas?”

Para esses, o conceito de felicidade está diretamente ligado não só ao consumo de bens materiais, como à exposição deles.

Eu tenho a impressão de que esse tipo de comportamento deve provocar uma baita ansiedade, angústia e momentos de depressão. Sabe lá o que é você passar a vida dependendo da aprovação e da admiração alheias?

Grana é importante para proporcionar conforto, qualidade de vida. Sucesso é muito gostoso, gratificante, dá uma levantada na auto-estima. Porém, somente pensar em grana e sucesso acaba provocando efeito contrário, a pessoa torna-se escrava de ambos e passa a agir em função de chamar a atenção para si. E, evidentemente, vai perdendo o senso de equilíbrio e dispara a agir e a falar besteiras. A mídia está repleta de casos assim. Mas eu achei engraçadas duas entrevistas seguidas, no espaço de trinta dias, de uma socialite ricaça que, no momento, parece se encontrar em absoluta disponibilidade sentimental, dando pinta de que começa a treinar para disputar o tradicional esporte de “matar cachorro a grito”.

Na primeira entrevista ela dizia que estava namorando Fulano e que ele era “o homem de seus sonhos, que jamais havia sentido algo tão forte, tinha certeza de que se tratava de uma paixão de outras vidas”.

Na segunda, um mês depois, o tal do “amor kármico” já havia terminado e ela se dedicava a falar das lipoaspirações a que havia acabado de se submeter: nos braços, nas coxas, nas pernas, na bunda e na barriga. Teria sido mais fácil dizer onde não tinha feito.

Isso nos mostra que certas pessoas vão ficando tão dependentes da própria exposição que, mesmo enveredando pelo grotesco, fazem questão de marcar presença”.

Titia deu a derradeira bicadinha no licor e continuou: “Gillus, meu sobrinho, eu adoro esses nossos papos porque às vezes me servem como catarse, mas ressalto que não tenho a pretensão de ditar regras ou me passar por  guru de ninguém, muito pelo contrário, não acredito em gurus. Creio que nada é mais importante do que a própria vivência para nos transformarmos, paulatinamente, em pessoas melhor resolvidas. O ideal é que cada um seja o guru de si mesmo, praticando com sinceridade, lucidez e serenidade, os ensinamentos que as vitórias, fracassos, mediocridades e brilhantismos pessoais proporcionam ao longo da vida. É o que se costuma chamar de ‘estar em paz consigo mesmo’”.

Com o apetite deliciosamente saciado e a alma lavada, despedi-me de titia com um  abraço apertado e um beijo em sua bochecha rosada .

Os orgasmos de dona Ivete

O orgasmo de dona Ivete

Casada há 28 anos com o engenheiro e veterano faixa preta amador Edmilson, a bibliotecária Ivete, até o final do ano passado não tinha tido o prazer de conhecer um orgasmo. Para não criar problemas conjugais, mesmo porque o marido é muito vaidoso e gosta de se vangloriar de suas próprias habilidades sob os lençóis, ela praticava a não recomendada arte da encenação e se anulava nesse delicioso quesito. Até que alguns dias antes do Natal, ela não só conheceu, como foi surpreendida com um gozo intensamente múltiplo. E quase pirou, chegou até a pensar que tinha morrido e chegara ao paraíso. Só que o responsável não foi o gostosão do Edmilson, mas, sim, o Coriolano, que não tinha a menor idéia de que estaria fazendo tamanho bem à sua vizinha, uma vez que mal se conheciam, pois desde que há cinco anos ele se mudara para o condomínio, se trocaram dois ou três cumprimentos foi muito. Cori, como era chamado pela esposa e os dois filhos, é um pacato comerciante, dono de uma pequena papelaria no bairro do Sumaré em São Paulo, magrinho, de pouca estatura, ostentando um bigodinho fino cujos fios negros contrastam com os da cabeça, na maioria brancos, que não aumentam e nem diminuem os seus 56 anos. Coriolano é o oposto de Edmilson, que, embora dois anos mais velho do que ele, aparenta bem menos, graças à pele sempre bronzeada e a musculatura em excelente estado.

Exatamente por isso é que o sexo tem lá os seus mistérios. A Ivete só conseguiu se realizar justamente com um sujeito que colocado ao lado de seu marido perderia de goleada diante de um júri feminino. O mais espantoso de tudo foi que ela não teve seus incríveis orgasmos múltiplos numa relação física com o Cori, mas sim num sonho prá lá de incandescente, numa noite que o marido havia viajado para Curitiba.

O problema foi que depois dessa descoberta divina, Ivete passou um mês sem sonhar com o príncipe encantado. Começou a ficar ansiosa, o que acabou por chamar a atenção do marido, que jamais a vira dessa maneira, “nervosinha, meio histérica”, pensou ele.

Quase fora de si, Ivete resolveu por um plano em prática, foi à luta e, munida do celular, conseguiu, sem ser percebida, fotografar o Cori, no momento em que ele, de short, sandálias havaianas e camiseta regata regava seu (dele) jardim de begônias. Em seguida, entrou em casa, escolheu a melhor pose, imprimiu, subiu numa escadinha e colou a foto no teto do quarto. Naquela noite faria o grande teste.

Hora de dormir, não deu outra, Edmilson, irresistível e sem camisa, aproximou o peito robusto e cabeludo de Ivete e deu início ao ritual amoroso, como sempre sem maiores preliminares e com certo excesso de rudeza que ele acha que todo macho deve ter nessa hora. Discretamente, Ivete, olhos fixos no teto, acabou tendo um orgasmo tão forte que assustou o marido. Esse, mais envaidecido do que nunca, sentiu-se o rei de todos os garanhões.

De manhã, depois do banho, enquanto se vestia, Edmilson casualmente viu a fotografia no teto. “O que significa isso, Ivete? Esse não é o idiota do nosso vizinho?”

“Amor”, respondeu ela, “fiz questão de colocar essa foto aí para nunca me esquecer de que tirei a sorte grande me casando com o homem mais gostoso da face da terra e que eu poderia ter tido o azar de me unir a um sujeito tão imbecil quanto esse aí no teto!”

Não cabendo em si de orgulho, Edmilson estufou o peito, colocou o paletó, deu uma beijoca displicente na esposa e saiu pra trabalhar.

Já se passaram dois anos, os orgasmos continuam firmes, a foto embora mais desbotada permanece no mesmo lugar e Edmilson ainda mais vaidoso, propôs até que ela trocasse por uma nova. Ele mesmo poderia clicar o pateta do Coriolano.

Na casa em frente, sem saber que é um verdadeiro fauno na cama, Cori, de três em três dias aparece no jardim para regar as begônias.

Amores do Facebook

O guru do Facebook.

“Olá, por acaso você é o Ruggero?”

“Sim sou! E você deve ser a Suzette, não?”

“Eu mesma! Custei um pouco a reconhecê-lo…”

“Gozado que eu também fiquei meio assim de chegar até você. Achava que era você, mas sem ter certeza, não queria pagar mico…”

“Bem, estamos os dois aqui, finalmente! Já tem mais de um ano que a gente se comunica pelo Face, não é mesmo?”

“É, por aí…Pessoalmente você é mais cheinha e um pouco mais madura…”

“É, o Face engana um pouco… Ruggero, a foto do seu perfil é recente? Lá os seus cabelos eram mais claros, não? Estão super negros agora!

“Aquela foto é de quando eu me formei na faculdade. De lá prá cá já se passaram 20 anos e eles foram escurecendo. Talvez seja minha ascendência índia. Eu adoro aquela foto. E você Suzette, como vai o seu ballet?”

“Você diz isso por causa da minha foto no perfil?”

“É eu acho muito legal aquela sua foto, apesar de um pouco escura e embaçada”.

“Ah, Ruggero, aquela foto é de 73, quando eu estava no auge da academia de dança. Faço questão de tê-la como imagem oficial do meu Face, me traz ótimas recordações”

“Mudando um pouco de assunto, Suzy, você vem sempre aqui na Livraria Travessa?”

“Menos do que eu gostaria, mas fiz questão de marcar nosso encontro aqui porque deduzi que você, sendo um intelectual da zona sul do Rio de Janeiro, aprovaria. Além do mais, Ruggero, eu amo Ipanema! Aqui é o meu ninho”.

“Bem, eu adorei a sua escolha, embora o meu bairro seja o Leblon. Mas aqui na Travessa, entre tantos livros, sinto-me no meu habitat. Vamos pedir um café?”

“Ótimo, para mim o café desperta o cérebro e aquece a alma. Depois poderíamos caminhar um pouco pelo calçadão da praia, topas?”

“Pôxa, Suzette, eu adoraria, mas estou com um problemão!”

“É mesmo, Ruggero? Posso ajudar em alguma coisa?”

“Infelizmente não, querida. Lembra que eu falei que estava me separando de minha mulher e que há mais de quatro meses estamos vivendo em casas separadas?”

“Lembro sim, o que aconteceu?”

“Pois é Suzy, ontem ela invadiu a minha casa e disse que só sai da minha cama, morta! Então eu preciso ir lá tentar convencê-la a não fazer uma loucura!”

“Que terrível, Ru! Mas é claro que eu compreendo, você deve estar aflito para resolver isso logo, não? Pôxa, fique à vontade!”

“Obrigado pela compreensão, Su. Eu estou com a cabeça a mil, mas não podia perder a oportunidade de, depois de tanto tempo, conhecermo-nos pessoalmente.”

“Não faltarão oportunidades, Ru! É melhor a gente ir, antes que sua mulher cometa um desatino”.

O casal de pombinhos despediu-se na calçada da rua Visconde de Pirajá, cada um caminhando para um lado.

Mas, como até os nossos ancestrais já sabiam, a mentira tem pernas curtas. Em poucos minutos os dois se reencontraram dentro de uma Van “de lotada”, que faz o trajeto Vidigal-Baixada Fluminense. Quando o Ruggero entrou, a Suzette já estava sentada.

Devido ao excesso de passageiros, tiveram que seguir viagem, espremidos lado a lado. Só depois de uns cinco minutos de mutismo constrangedor de ambas as partes, foi que o Ruggero resolveu falar:

“Quando estou muito estressado, deixo meu carro na garagem do meu prédio no Leblon, pego essa Van e vou meditando até São João de Meriti”.

“Eu também, disse Suzette. Mas eu medito até Belfort Roxo…”