Trago o seu amor de volta

    Trago o seu amor de volta

São Paulo está repleta de faixas e cartazes em que uma pretensa médium promete trazer o amor perdido de quem quiser.

E como prova de lisura, diz que o pagamento só será efetuado após o sucesso da empreitada.

Como são inúmeros os casos de relações amorosas desfeitas, esse mercado parece ser bastante promissor.

Ruddes Boccattus até sentiu vontade de marcar uma consulta para, como diz ele naquele seu jeito tosco e direto de ser, “desmascarar essa safadeza”.

Porém, mais sereno, achou melhor deixar pra lá, pois, “quem quiser ser idiota e cair nesse conto do vigário, que caia”.

Mas, mesmo assim não deixou de comentar o assunto no almoço dos domingos da família Boccattus.

Para surpresa geral, sua irmã Rubbias confessou ter sido seduzida por uma dessas mensagens e acabou por comparecer à consulta de Mãe Avenca.

Rubbias queria porque queria, trazer de volta o amor de Heraldo, rompido há mais de cinco anos, mas que ainda mexia com o coração carente da moça.

“Eu não acredito que você tenha feito isso, minha irmã!”

“Não só fiz, como acho que vai dar certo e que, no máximo em quinze dias, o Heraldo estará batendo à porta de minha casa, pedindo prá voltar”.

Indignado, Ruddes insistiu: “Rubbias, o que te dá essa certeza? O que a tal de Mãe Avenca fez?”

“Ela tem uma força interior, uma carga espiritual muito forte, saí de lá convicta de que vou ter meu amor de volta”.

“E você teve que pagar alguma coisa?”

“Não, só pagarei oitocentos reais quando Heraldo estiver morando comigo.

O que eu fiz foi adiantar quatrocentos reais para que Mãe Avenca pudesse comprar o material necessário para fazer o trabalho”.

“É mesmo? E o que é necessário?”

“Um pé de avenca, um charuto, duas fitas vermelhas, uma casca de coco,

uma garrafa de cachaça, farofa e um pacote de coração de galinha, desses de supermercado. Com isso a Mãe Avenca vai até o riacho Butantã, que passa ali na USP e deita o trabalho. Em quinze dias Heraldo tá de volta”.

“Lamento lhe dizer maninha, mas você jogou quatrocentos reais no lixo. Ou seja, caiu no golpe da Avenca”.

“Ruddes você é muito pessimista, meu irmão! Como pode ter tanta convicção disso?”

“Fácil! Primeiro que o material não custa nem cinqüenta reais e cobrar quatrocentos já é um roubo. Segundo porque você e Heraldo viviam brigando, sempre infelizes, estava na cara que não ia dar certo. Agora, cinco anos depois, ele está casado e numa boa”.

“E você, sabichão, ao menos teria alguma sugestão para me ajudar?”, insistiu ela.

“Bem, se você continua com essa idéia fixa, a única solução é comprar um revólver, uma avenca, seqüestrar o Heraldo e mantê-lo trancado em cárcere privado.

A avenca você deixa junto, para que ele possa continuar mantendo contato com a natureza”.

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Grupos do Facebook

Grupos do Face

– Oi Michele! Há quanto tempo!

– É verdade, Tamarah, tem uns vinte anos que não nos vemos, pensei até em localizá-la no Facebook…

– É mesmo? Eu tô no Face direto, todos os dias, todas as horas. E você?

– Eu também, amiga, igual a banco 24 hs. Tenho mais de quatro mil amigos e participo de 26 grupos. Uma loucura!

– Eu ainda não cheguei aos quatro mil, mas estou quase lá, já fiz 3.834 amizades e estou em dezoito grupos, todos defensores de causas ma-ra-vi-lho-sas! Num deles, o “Raiz Natureza”, sou a administradora, contamos com seis mil membros, todos incrivelmente conscientes da necessidade dessa coisa de sustentabilidade.

– Que legal Tamarah! E o que faz esse grupo?

– A gente defende a preservação dos coqueiros anões do oásis do deserto do Atacama.

– Sensacional! Adoro gente antenada com essa coisa de conscientização da vida, enquanto natureza. Eu tenho um grupo que você vai adorar, chama-se “Toques de amor”, com 1.200 membros, que é super participante.

– Adorei o nome, Michele! E o que faz o grupo?

– De quinze em quinze dias, às quintas-feiras, às 18 hs em ponto, cada um de nós vai até o jardim ou um vaso de plantas e acaricia durante quinze minutos as folhas. Depois nos reunimos todos no Face e cada um descreve a sensação durante o toque e a resposta afetuosa por parte da planta. É emocionante! Uma troca, uma catarse amorosa, uma integração entre o humano e o vegetal comprovando que todo ser vivente é dotado de alma.

– Olha, fiquei toda arrepiada, Michele…que coisa mais linda!

– Realmente, é indescritível Tamarah! É como se viajássemos pelo espaço sideral…

– Fofésimo! Deve ser a mesma emoção que sinto ao mentalizar os coqueiros anões do Atacama. Desculpe a indiscrição, pode parecer mentira, mas, juro, chego ao orgasmo.

– Pô, minha amiga, entendo e acredito piamente no que você está contando. Também estava sem jeito de revelar a mesma coisa, pois é exatamente o que acontece quando acaricio os antúrios gigantes do meu jardim, vivencio orgasmos intensos!

– Ai, Michele, poucas pessoas conseguiram, como nós, transitar em outra dimensão cósmica… Precisamos voltar a nos falar, estreitar nossa amizade. E o Marquito, como vai?

– Não acredito, Tamarah! Você ainda se lembra dele? Já nos separamos há quatorze anos. Depois namorei um monte, mas, de repente, me enchi de tudo. Entrei pro Daime e fiquei lá, um bom tempo. Saí e há cinco anos não namoro ninguém a nível terreno.

– Puxa! Sua história é muito parecida com a minha! Eu me separei do Betinho há onze anos, depois caí na gandaia, experimentei de tudo, até bater uma tremenda rebordosa. Então, graças ao doce aroma de um incenso, resolvi ser Hare Krishna, mas, não me sentia plena. Há quatro anos não quero mais saber de homem nenhum dessa dimensão. Estou muito feliz com o meu Face e amando os meus coqueiros anões. Eles me bastam!

– Viva amiga, é isso aí! Meus amigos do Face, meus grupos e meus antúrios me completam por inteira! Vou solicitar sua amizade, assim que chegar em casa.

– Evoé, amiga!

– Rá!

Diminua o seu pênis!

Diminua o seu pênis

Não são poucas as pessoas que se valem de pequenas ou grandes mentiras para valorizar um argumento.

Algumas, para justificar falhas, atrasos ou faltas em compromissos, outras prá contar vantagem, ficar bem na fita, sem levar em consideração a velha máxima: “A mentira tem pernas curtas”.

Nelson, o Nenê, enquadra-se perfeitamente nesse caso. Seja qual for o papo, lá está ele, aproveitando para tentar impressionar a galera. Até que, uma conjugação bastante inusitada de acontecimentos, acabou se transformando numa grande chateação para ele.

Os moradores do imenso condomínio resolveram comemorar São João com uma big festa, onde não faltaram, desde a enorme fogueira com direito à batata doce assando na brasa, doces, salgados, quentão e milho, até uma animada dança de quadrilha.

Para melhor comandar a festa, montou-se uma bancada com cinco cadeiras e um microfone, da qual a Eliane, organizadora e mulher do Nené, auxiliada por quatro vizinhas, iam convocando e animando as atividades.

O tempo bom, sem uma nuvem sequer, garantia o conforto das dezenas de mesas espalhadas sob o céu estrelado.

Numa delas, além do Nelson, acomodara-se a nata dos gozadores: Cacá, Geraldo, Cirilo, Vitinho, Orlando, Naílton, Soares, Marcelo, João, Arthur e Vladimir.

O desastre começou quando Nenê, embalado por algumas doses de Fogo nas Ventas, cachaça que o João trouxera do alambique de sua fazenda, começou a praticar o esporte em que é viciado: contar vantagem.

O Orlando havia comentado a incrível freqüência com que recebia spams, anunciando produtos e fórmulas para aumentar o pênis, e perguntou aos demais:

“Será que conseguem vender esse tipo de produto para alguém?”

“Realmente, cara, esses spams são muito grotescos…”, respondeu o Soares.

Os demais foram mais ou menos nessa mesma linha, menos o Nelson que, se imaginasse as conseqüências, não teria tentado se aproveitar da situação, só pra se exibir.

“Pô caras, a Eliane, minha mulher, acredita nessas mensagens! Outro dia ela estava usando o meu laptop e leu, nos e-mails que recebi, um desses prometendo “aumentar o meu membro”. Imediatamente, ela virou-se pra mim e decretou: “Everaldo, nem pense em aumentar o Bebezão – apelido carinhoso de meu pinto – ele já é grande demais! Se você quiser aceitar essa oferta, faça o contrário, aproveite prá diminuí-lo!”

Todos os companheiros de mesa ficaram mudos e, certamente, tiveram o mesmo pensamento: “o Nelson ultrapassou todos os limites, com mais essa tremenda cascata!”

Infelizmente para o Nenê, o mico não parou por aí, piorou.

Sem perceber que o microfone estava ligado, Eliane, sua querida esposa, trocava inconfidências com as companheiras de bancada e sua infeliz frase, seguida de uma gargalhada, acabou ecoando por todos os cantos: “Nosso São João está maravilhoso, amigas. Tudo nos conformes! Só os salgadinhos é que não estão de acordo. Além de insossos, são muito pequenininhos! Olha esse croquete aqui, tá parecendo o pintinho do meu Nelson! Ahahahahahahah!”

Como que por encanto, a festa parou. Silêncio absoluto!

Nelson, atônito, fez a única coisa possível naquele momento. Mesmo bastante caneado, saiu correndo em disparada e trancou-se em casa, onde ficou por uma semana, enquanto Eliane buscou abrigo na casa dos pais, sem nem ao menos voltar prá pegar suas coisas.

Porém, mesmo assim, durante essa semana em que esteve escondido, Nelson não teve trégua. Seus companheiros de mesa, implacáveis, ao passar de carro diante da casa dele, gritavam: “Aumenta o Bebezão, Nenê!”

Nelson e Eliana mudaram-se para uma cidadezinha no interior do sul do país, onde passam grande parte do tempo discutindo a relação.

O significado de sua foto no Facebook

O significado de sua foto no facebook

De vez em quando o facebook inventa alguma coisa para criar interação entre os usuários e acaba seduzindo muita gente. Agora, por exemplo, você clica num aplicativo e ele lhe fornece uma análise detalhada de você, a partir de sua foto no perfil. E é claro que as qualidades são fartas e as pessoas postam a própria descrição para os demais admirarem. A impressão que passa é que muita gente só passou a se conhecer naquele instante. Ou já se conhece, mas prefere acreditar e passar para os outros a ilusão criada pelo face. É igual àquele negócio dos “médiuns” especialistas em vidas passadas. Todo mundo já foi guerreiro, herói, príncipe, princesa, rainha ou rei em outras encarnações. Jamais um fracassado, ladrão, assassino, corrupto ou covarde.

Meu primo Canddiddus Boccattus, grande gozador e craque em tecnologia da informação, resolveu criar um aplicativo desses e postar no facebook, dirigido somente aos amigos do sexo masculino. As respostas são iguais para todos, embora ninguém saiba disso. Até agora, 42 amigos de Canddiddus acessaram o aplicativo, mas ninguém divulgou as respostas, segundo meu primo me disse hoje, durante almoço dominical na casa de tia Rubbias.

Quando lhe falei que era estranho não ter havido nenhuma manifestação, Canddiddus deu uma piscadela e fez sinal com a cabeça para irmos até a varanda. Lá, o primo tirou um papel do bolso e me entregou, não sem antes fazer a seguinte observação: “Gillus, essa é a análise que qualquer cara que acesse meu aplicativo, vai receber. É a mesma para todo mundo. Dê uma lida”:

“Homens como você tem enorme dificuldade em acreditar nas mulheres, muito embora existam inúmeras razões para isso, afinal elas raramente lhe são fiéis. É comum você se perguntar por que isso acontece, o que afinal há de errado com sua pessoa. Graças à análise detalhada da sua foto do perfil, podemos trazer luz às suas dúvidas e inseguranças. Não pense que o problema está apenas no fato de você ser um homem mal dotado sexualmente e procurar compensar com exibicionismos que acabam levando-o ao ridículo. Contribui também para isso a sua personalidade desajeitada no trato com as mulheres, sempre fazendo piadinhas sem graça nas horas impróprias. Por fim, é fundamental que você consulte um dentista ou um gastroenterologista para detectar o motivo do seu hálito desagradável. Boa sorte, amigo!”

Não pude deixar de rir e perguntar ao Canddiddus, se ele conseguia identificar quem acessava o aplicativo. “Claro”, respondeu, “dos que estão aqui no almoço, o Macchus, o Ruddes, o Anggellinnus e o Innoccenccius”.

“E como eles reagiram?”

“Ficaram na moita. Sabe quando vão divulgar pelo face os resultados desses testes? Nunca! Mas, no mínimo, já andaram de fita métrica na mão, consultando o Google para descobrir se, realmente, estão fora do padrão do pinto brasileiro.”

Caímos na gargalhada…

Rubbias Boccattus e suas relações amorosas

Rubbias Boccattus e as relações amorosas

Festeira inveterada, tia Rubbias acumula, no esplendor de seus 88 anos, profícua experiência amorosa. Não se sabe ao certo qual é o seu trunfo ou segredo, mas a verdade é que não foram poucos os homens que sucumbiram aos encantos de titia.

E assim tornou-se natural que várias hipóteses fossem aventadas pela própria família, uma vez que sua longa lista de conquistas alcança a respeitável marca de 1002 espécimes masculinos devidamente abatidos.

Alguns dizem que sua sensualidade é genética, herdada de sua bisavó Marcellas, famosa por ter levado à loucura D. João VI, enredado em suas peripécias sob seus lençóis de seda com monogramas bordados em ouro. Outros atribuem a um tratamento à base de hormônios de coelho a que Rubbias se submeteu ainda na flor de sua juventude.

Mas não importa quais seriam os motivos, a verdade é que bastava provar do amor de titia para se tornar seu eterno prisioneiro.

No dia 28 de março, como faz todos os anos, Rubbias reverenciou com uma fantástica paella para duzentos convidados, o vigésimo aniversário de falecimento daquele que foi o único homem que deixou para sempre, profundas e insuperáveis marcas de amor em seu coração.

E nessas ocasiões titia sempre se emociona, principalmente quando no som começa a tocar a música de Chico Buarque com a qual ela celebra essa data: “O meu amor tem um jeito manso que é só seu e que me deixa louca, quando me beija boca, minha pele fica arrepiada…”

Sentada no cadeirão de vime, debaixo do flamboyant magnificamente florido e com o olhar perdido no passado, titia foi abordada por alguns dos convidados, ávidos por matar a curiosidade que há décadas tornou-se tabu familiar e resolveram perguntar sem rodeios: “Rubbias, afinal de contas o que é que o Lourenço tinha de tão especial assim, para lhe deixar apaixonada para sempre? E porque você nunca falou sobre esse assunto pra a gente?”

“Bem, queridos, eu nunca falei nada sobre isso porque nunca me perguntaram. Quanto ao Lourenço, ele tinha algumas qualidades que aprecio num homem: era um grande amante, não me podava, me amava, me divertia e era um sujeito discreto. Jamais escutei Lourenço contando vantagem, principalmente quando se tratava de mulher. Enfim, pelo menos para mim, ele era o que eu sempre sonhei”.

“Puxa tia”, aparteou Rennattas, “realmente devia ser maravilhoso conviver com ele. Mas, não sei, acho que mesmo assim, não era motivo suficiente prá ele se destacar tanto em relação aos outros, a ponto de você cair de quatro pro resto da vida”

“Bem Rennattas, na verdade ficou faltando falar de um predicado físico que ele tinha, mas eu prefiro não comentar”.

“Pôxa, tia Rubbias, por que? Qual é o problema?”

“Bem, o problema é que seu falar, vocês não vão acreditar. Vão dizer que é exagero, mania de grandeza, que estou gagá!”