O guru do Facebook

O guru do Facebook.                                                                                                                                                                                                                                                                Até o advento das mídias sociais, Evaristo era uma figura apagada, meio arredia, quase imperceptível a olho nu. O estrelato começou a despontar para ele, quando inaugurou sua página no facebook. Evaristo pode até, pessoalmente, ser um cara apagado, inexpressivo e, talvez por causa disso mesmo, tornou-se extremamente observador. E uma das coisas que ele sacou logo de cara é que no Face, carência afetiva é igual brasileiro em Miami: tá em tudo que é canto.

Outro detalhe importante que chamou a atenção de Vavá (apelido carinhoso que carrega desde a infância), foi o fato de que era extremamente fácil emocionar a platéia e receber expressivas quantidades de curtições e comentários elogiosos. Bastava para isso, postar frases impregnadas de obviedades, falar aquilo que todo mundo quer ouvir. Ou seja, o Face é um gigantesco livro de auto-ajuda. O amor está no Face! A solidariedade está no Face! A amizade está no Face!

E o mais importante: você jamais precisará comprovar o que diz, ao vivo. Virtualmente, o mundo é maravilhoso.

Diante desse quadro absolutamente favorável, Vavá deitou e rolou. Por estar aposentado, ele dispõe de todo o tempo do mundo para curtir, comentar, criar e postar frases, poesias e ditados repletos de banalidades e lugares comuns, sob medida para ganhar as curtidas da galera carente.

E, assim, o nosso herói, em dois anos de Face, já colocou mais de

cinco mil posts e, a título de exemplos, repassamos alguns deles:

“A flor no jardim, como toda mulher, embora delicada, é capaz de resistir aos maiores vendavais, enquanto no asfalto, o caos se instala e a tempestade subjuga o aço bruto dos veículos”

“Se tu não existisses, meu amor, meu nascimento não teria valido a pena”

“Abaixo a miséria! Fartura prá todo mundo”

“Bom dia a todos! Que um raio de sol lhes dê o primeiro beijo nessa manhã!”

“Se todos fossem iguais a vocês, amigas e amigos, que maravilha viver!”

E assim, Evaristo tornou-se um dos maiores ídolos do Face, espalhando amor, dignidade, honestidade, bondade e ternura, diversas vezes ao dia.

Enquanto isso, alheias ao mundo digital, as atrocidades crescem diariamente e os nossos políticos e autoridades, cada vez mais cínicos, continuam livres, leves e soltos, em seus projetos pessoais de desvios astronômicos de verbas públicas.

As bem amadas

As bem amadas

Quem conhece a família Boccattus, sabe que, em se tratando de sucesso com o sexo feminino, Candiddus desperta o maior orgulho entre os parentes. Com um jeito especial de tratar as mulheres, Candiddus coleciona uma enorme e admirável lista de conquistas. Nem feio, nem bonito e sem apresentar relevantes atributos físicos, ele apenas põe em prática seu método simples, porém infalível de seduzir as mulheres. Aos mais curiosos, é bom destacar que ele jamais revelou o seu segredo. Mas, se a gente prestar atenção, dá prá sacar algumas de suas mumunhas.

Absolutamente contrário à máxima atribuída a Nelson Rodrigues de que toda mulher gosta de apanhar, Candiddus, por outro lado, acha perfeito o título de uma das peças do mesmo Nelson, “Perdoa-me por me traíres” a qual, inclusive, inspirou a bela letra de Chico Buarque na canção Mil Perdões: “Te perdôo por contares minhas horas nas minhas demoras por aí, te perdôo por que choras quando eu choro de rir, te perdôo por te trair…”

Trocando em miúdos, para Candiddus o responsável por sua mulher amá-lo ou não, traí-lo ou não, é você mesmo. “Mulher bem amada não tem idéias de jerico. Só de colibri!”, afirma com uma de suas máximas, o sedutor.

E agora ele surpreendeu mais uma vez. Corria a notícia entre a vizinhança, de que Adélia, cansada dos maus tratos e da falta de sensibilidade por parte do Egberto, resolvera sair de casa levando apenas uma mala de roupas. Essa atitude não causou maiores surpresas aos mais chegados do casal, uma vez que o marido jamais dera o devido valor ao tesouro que tinha em casa. Pelo contrário, a cada dia a moça apresentava uma aparência pior, relaxada consigo mesmo, pouco sorrindo e a pele do rosto visivelmente maltratada, como prova de que a felicidade estava passando muito longe dali. Logo ela que há uns anos atrás, encantava o bairro com sua beleza, irradiando simpatia.

Bem, mas verdade é que ela se separou e foi morar na casa de uma tia-avó.

Passados quase dois meses, uma nova surpresa: Egberto vê passar de moto, um casal esbanjando alegria, como se o mundo fosse um enorme parque de diversões. Ficou meio na dúvida, mas para ele tratava-se da Adélia na garupa do Candiddus.

A confirmação veio dias depois ao dar de cara com o novo par de pombinhos saindo agarradinho de um barzinho. Egberto sentiu o golpe. Entrou, sentou-se numa mesa de fundo e pediu ao garçom uma garrafa de Vodka , copo e gelo.

Na quinta dose, aproximou-se dele o velho amigo Geraldo: “Ô Egberto, o que está acontecendo, cara! Pára com isso, levanta a cabeça, vai!”

Egberto, com a voz já meio enrolada, desabafou: “Sabe Gê, o meu maior choque não foi vê-la toda melosa nos braços do Candiddus. O que realmente me abalou, foi constatar que uma sedosa pele de pêssego tomou conta do rosto da Adélia!”

Na Praia de Ipanema

Na praia de Ipanema (2)

Tem coisas que só podem acontecer no Rio de Janeiro.

Sábado ensolarado na Cidade Maravilhosa, resolvi dar um mergulho na praia de Ipanema.

Mar calmo, praia lotada às 4 da tarde, abri a cadeira, sentei-me perto d’água e me entreguei a um dos meus maiores prazeres: observar o vai-e-vem das mais diferentes e incríveis figuraças. Logo resolvi dar um mergulho e depois fiquei por ali, de pé na beirinha, curtindo a água pelos joelhos.

Aproximou-se um sujeito de seus 50 anos, shorts grandes de pano, parecendo estar-se esbaldando no mar.

“Praia sem sol e sem mulher bonita não é praia, já dizia o grande Vinícius de Moraes”, disse ele.

“É mesmo”, concordei, sem nenhuma certeza de que Vinicius falou aquilo mesmo.

“Isso aqui era o paraíso dele”, emendou o homem.

“É verdade. E, pelo jeito, você é fã do Vinícius. Viu o filme sobre ele?”, procurei retribuir à simpatia do homem.

“Vi duas vezes. E tô com vontade de ver a terceira.Tu sabe porque Vinícius morreu?”

“Por quê?”, perguntei curioso.

“Porque ele adorava uísque, bebia muito e não comia. Tu, por exemplo, gosta de beber vodca, mas não deixa de se alimentar, né? Isso faz muita diferença.”

“É mesmo”, respondi ao mesmo tempo em que procurava entender porque o sujeito achava que eu era bebedor de vodca.

“Vinícius sabia viver, né? Comeu muita mulézinha por aqui, né?”

“É”, respondi meio cabreiro, com a nítida impressão de que ele estava me achando contemporâneo de Vinícius.

Por via das dúvidas, encolhi a barriga.

O homem, então, concluiu:

“O Vinícius poderia estar vivo até hoje se tivesse se cuidado. Mas, se tivesse se cuidado, talvez não tivesse vivido tão bem. Morreu feliz. Pior é que a maioria desse pessoal que a gente tá vendo aqui na praia nunca vai curtir a vida como ele. Tem nego que vai durar cem anos, sem ter vivido dez.”

Em seguida, deu tchau, saiu da água, vestiu uma camisa e um boné verdes, ajeitou nas costas um isopor do Matte Leão, um saco grande de plástico cheio de biscoitos Globo na mão direita e saiu pela praia anunciando alto os seus produtos.