Consultório sentimental No 9

Consultório Sentimental

Responsável: Sexóloga Abbddas Boccattus

Prezada Dra Abbddas,

Embora ainda não tenha completado cinqüenta anos, sou mãe, avó e divorciada. Casei-me muito jovem e até hoje não sei ao certo se valeram a pena os quinze anos de matrimonio. Muitos problemas e poucos orgasmos. Depois tive vários relacionamentos, nenhuma grande paixão e a melhor coisa que me aconteceu foi quando cheguei à conclusão de que não existe príncipe encantado. Nesse momento relaxei e passei a curtir a vida sem ilusões. Até porque, encontrar um relacionamento legal está muito difícil. Não sei se eu é que sou esquisita e não consigo achar um homem normal. Porém, veja se eu não tenho razão: você conhece o cara, começa bater papo e logo ele começa a contar vantagem, procurando me convencer, disfarçadamente, que eu estou diante da pessoa mais incrível do mundo e que deveria sentir-me honrada com tamanho privilégio. Cada um deles com seus “fantásticos predicados”. O Virgilio me diz que é maratonista, um super homem. O Orlando é gênio do mercado financeiro, ganha dinheiro como quem estala os dedos, o Paranhos é poeta e seu coração bombeia flores e mel, o Venâncio é socialista, irônico, tem a grande solução para os males de nossa sociedade doente, o Lima só usa camiseta regata, exibindo o enorme tubarão tatuado no braço musculoso, como se fosse um sinal de testosterona máxima, ereção 24 horas.

Já o Marlon acha que a vida é uma grande cerveja e o Pierre passa o tempo todo ajeitando a tiara, nos seus longos cabelos cacheados.

Mas o motivo de estar lhe escrevendo, Dra Abbddas, é que faz um mês eu conheci o Arquimedes, um cara muito legal, executivo de multinacional, solteiro, cinquenta anos, simpático, gentil, sensível, educado, culto, uma companhia muito agradável. Tudo ia muito bem, até que, após uma romântica noite de queijos e vinhos, decidimos curtir nossa primeira noite de amor. Quiqui, nome carinhoso com que o chamo, estava quase bêbado quando chegamos ao apartamento dele e que eu ainda não conhecia.

Foi aí que começaram as coisas estranhas: fotos antigas de uma mulher espalhadas por toda a sala, duas em dois grandes quadros pendurados na parede e mais quatro, em porta-retratos sobre mesinhas.

Perguntei pra ele quem era e Quiqui, com voz pastosa disse que se tratava de Da Mercedes, sua mãe e grande paixão de sua vida. Falou que era edipiano assumido, mas que jamais tivera algo com Da Mercedes porque, “infelizmente ela sempre repeliu minhas investidas”.

Mesmo um pouco chocada, mas anestesiada pelos efeitos do álcool, acompanhei-o ao quarto, onde, sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama de casal, repousava uma foto sorridente de sua amada genitora.

Quiqui me deu um baby doll com cheiro de naftalina e um enorme M bordado do peito para vestir. E começou a me chamar de Mercedes. Apavorada, eu não sabia o que fazer, mas a sorte estava comigo porque, ao voltar do banheiro, constrangida, usando o tal baby doll, vi que Quiqui apagara e dormia a sono solto.

Escapuli rapidamente, peguei um taxi e fui pra casa.

Desse dia em diante, Quiqui me liga todos os dias, querendo sair. Devido ao porre, ele não se lembra de nada do que aconteceu naquela noite e eu fico dando desculpas para recusar seus convites. Mas, a verdade é que gosto dele, de estar com ele, não sei o que fazer. Por isso estou recorrendo à sua conceituada opinião, Dra Abbddas.

Marlene Caldoverde, 49 anos, Maringá (PR)

Cara Marlene,

O seu caso é de simples solução: de um lado você tem homens imaturos, adoradores de seus próprios egos e com os quais não sente vontade de se relacionar. Do outro tem o Arquimedes. Você sabe que o mercado está ruim, não dá para ficar exigindo muito. Então, minha querida, se você não tem nada contra a letra M ou a existência platônica da Mercedes, a qual já mostrou enfaticamente que não quer nada com ele, vá em frente prá ver o bicho que vai dar. Vai que Quiqui se revela uma grata surpresa sob os lençóis…

Cordialmente,

Abbddas Boccattus

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