Sem identidade

Sem identidade

Wander Renaguá ocupava, até o mês retrasado, o cargo de diretor de marketing de uma poderosa multinacional de material esportivo. Era bastante cortejado pelos mais diversos tipos de fornecedores que iam de agências de propaganda e fabricantes de produtos promocionais até veículos de mídia. Convites diários para almoços, coquetéis, jantares, eventos badalados. O assédio era tanto que o Wander acabou por incorporar o poder à sua personalidade, esquecendo-se de que grande parte do prestígio devia-se à função que desempenhava.

Aquele outrora membro de uma família simples de classe média baixa foi se deslumbrando, excedendo-se na prepotência ao lidar com terceiros.

Mesmo os velhos amigos foram sendo trocados por novos interesses pessoais.

Wander passou a consumir tudo o que ele julgava aparentar opulência e poder, desde sua caminhonete Hilux Giant Power Master Plus 2015, até seus ternos Armani, suas gravatas Ermenegildo Zegna e seu Rolex Cosmic Golden Diamond.

Porém, o inesperado aconteceu. A poderosa empresa onde trabalhava viu-se envolvida em um rumoroso caso de corrupção internacional e acabou por reduzir drasticamente sua operação no país, dispensando setenta por cento do seu efetivo. Infelizmente Wander estava entre eles.

Para manter o padrão de vida, não poderia ficar muito tempo desempregado e daí que, para aquele semi-deus, não restou outra alternativa a não ser procurar emprego.

O negócio estava ficando preocupante, pois já havia feito diversas entrevistas e nada. Até que um anúncio no jornal, oferecendo o cargo de diretor de marketing de uma empresa nacional também de material esportivo chamou-lhe a atenção, principalmente porque os interessados deveriam comparecer ao teste psicotécnico dirigindo seu próprio carro.

Ao chegar ao local no horário agendado, Wander foi orientado a entrar com seu Hilux num grande pátio e aguardar dentro do veículo.

Em poucos minutos, Lourival, o gerente de Recursos Humanos, veio até ele, apresentou-se, pediu que saísse do carro e o acompanhasse até a sala de entrevistas.

Antes de se sentarem, Wander foi instruído a tirar toda a roupa, inclusive o relógio, e ficar apenas de cueca.

O primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi de como esses psicotécnicos estavam ficando cada vez mais esquisitos, porém, como estava precisando, fez o que o sujeito pediu.

Em seguida, acomodaram-se em duas poltronas e o gerente deu início ao teste:

“Primeiro você perdeu o seu cargo de poderoso diretor. Agora despojou-se de seu automóvel, de suas roupas e de seu relógio. Está praticamente nu.

A minha primeira pergunta é: Quem é você?”

Wander fez uma expressão meio atônita, fitou os próprios pés, pernas, peito, braços e pulsos buscando a resposta, depois olhou para o vago, em seguida para seu interlocutor e finalmente respondeu:

“Não sei”.

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