A chapa vai esquentar

A chapa vai esquentar

“Hoje a chapa vai esquentar, mas não é confusão, é churrasco do bão!”

Essa música, que torturou os telespectadores durante todo o tempo em que uma novela esteve no ar, animava, juntamente com os velhos sucessos da Jovem Guarda, o churrasco com que o Walcyr comemorava seus 50 anos.

A festa transcorria no amplo quintal da casa em que nasceu, no Grajaú, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, onde agora vivia com a Arlete.

Caipirinha, chopp, uísque, vinho, rolava bebida para todos os gostos. Afinal, tratava-se de meio século de vida, não era dia de economizar.

Como era de se esperar, logo, logo, o álcool fez efeito e abriu o apetite de todo mundo.

Ótimo, porque sobrava carne da melhor qualidade, vinda diretamente da reserva especial do açougue do Tonico, o qual, aliás, estava lá também, prestigiando o amigo de infância.

Porém, havia alguma coisa errada na fila do churrasco que, cada vez maior, não andava. E pior, o cheiro de carne queimando, se espalhava pelo ar.

Quem estava criando o problema era a churrasqueira contratada que, sabe-se lá porque, fazia questão de só servir carne muito mais do que bem passada. E ninguém tinha coragem de reclamar, nem mesmo os anfitriões. Acontece que a moça, apresentada como Jordana Picanha, tinha 1,85m de altura, era forte como um touro, o que explicava o fato de, segundo ela, ser campeã de levantamento de peso e box tailandês, além de uma voz mais possante do que a do Pavarotti. Perto dela a judoca Edinanci parecia uma donzela indefesa. Discordar da Jordana, não era tarefa das mais agradáveis e, pelo visto, ela só ia começar a servir quando a carne estivesse esturricada.

Como ninguém tinha coragem de abordar a Picanha, o jeito foi escolher na sorte. E o contemplado foi justamente o Alcides, um pacato contador que em matéria de sorteio, só ganha quando o premio é mico. E lá foi ele, cheio de dedos, conversar com a moça, enquanto no som, Roberto Carlos atacava de “Quero que vá tudo pro inferno”.

“Senhorita Jordana, sem querer incomodá-la, gostaria de lhe fazer um pedido muito especial: será que a senhorita poderia fazer a gentileza de providenciar carne mal passada para alguns de nós?”

Mantendo os olhos fixos no braseiro, ela respondeu com sua assustadora voz de tenor: “Mal passada é frescura, coisa inventada por gaúchos de Pelotas. Churrasco bom tem que ser crocante. Quem gosta de carne crua não precisa de churrasqueira. Volta prá fila que eu aviso quando estiver no ponto”.

Que situação de lascar, não? A tal da Jordana Picanha, acabou com a festa! E a Arlete ficou toda acabrunhada, sentindo-se culpada porque havia contratado a moça pelos classificados do jornal, sem maiores referências, atraída apenas pelo sobrenome. Correu o risco até ser uma psicopata com fixação em crematório, já imaginou?

A maioria dos convidados, de porre e faminta, acabou numa churrascaria rodízio. O aniversário virou uma piada, que se espalhou pelo bairro. Quando alguém pergunta como foi o aniversário do Walcyr, o pessoal responde na bucha: “uma brasa, mora!”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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